Skip to content

Do outro lado do Atlântico

13/09/2016

Do outro lado do Atlântico

 

Cruzo o Atlântico, amordaçado.

Sinto o suor dos meus inimigos tribais.

Não me mataram por que meu sangue era menos glorioso que a cachaça

e outras bugigangas, assim como o deles.

 

Abraçados vimos o sol nascer no Brasil.

Outros irmãos sucumbiram no mar.

Brancos com armas de fogo nos espiam.

Gesticulam para levantarmos, e as pernas tremem.

 

A novos brancos agora pertencemos.

Meu inimigo tribal, agora é meu irmão de senzala.

Nunca antes fomos tão próximos.

Olhamos um para o outro exaustos, e sem falar!

As vezes somos açoitados juntos, e sem gritar!

A noite rezamos juntos, e sem chorar!

 

A nossa esperança havia ficado do outro lado do Atlântico.

Cessamos as orações e as danças aos orixás.

Não queríamos acreditar em vida após a morte,

Já bastava a vida escrava terrena, e temíamos a vida escrava divina.

O suicídio era nosso único conforto, para o descanso último de nossas vidas.

 

Rafael M. de Araujo

 

 

 

 

 

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: