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A cova

13/09/2016

A cova

            O natal acabou. Apagaram as luzes, as árvores se desmontaram porque não eram árvores de verdade, eram árvores de natal. Já o peru de natal, esse era de verdade, mas foi desmontado também, desmontado pela fome enquanto todos ansiavam nascimento, mas ninguém nasceu. Norma bate novamente na porta do quarto de Theo.

— Saia do quarto agora, meu filho.

— Depois.

— Não, agora! Fala Norma agravando o tom da voz.

            Desta vez o isolamento de Theo preocupava-a. Certo que não era essa a primeira vez que passava dias enclausurado, mas já se passara uma quinzena. Norma que sempre respeitava seu espaço, por mais doloroso e estranho que fosse para uma mãe. Agora, porém, tornou-se insuportável. Seis horas depois do último chamado Theo apresenta-se a cozinha, pega uma fatia do bolo de milho que estava sobre a mesa e hesita em voltar, mas sua mãe o segura pelo braço e o impede de ir.

— Já respondeu as cartas? Fala norma olhando nos olhos.

— Não! Respondeu friamente.

— O que você estar esperando?

— Não sei, não sei…

— Não se deixa escapar assim oportunidades tão boas, filho.

Theo realmente fora um prodígio durante sua vida escolar e tirara pontuações admiráveis. Esforçou-se para ingressar nas melhores faculdades e teve êxito em todas elas, mas agora não lhe interessava nenhuma. Diversas cartas esperavam sua comprovação, uma assinatura bastava, mas não, ele não queria mais o que correu atrás com toda a sua força. Foi assim de repente, como diria o poeta fluminense: “de repente não mais que de repente”. No fundo Norma sabia qual era a causa, mas não ousara falar, pois já era sabido a reação devido a seu comportamento explosivo, ainda por cima quando se tratava de Letícia Amaro, uma jovem que ele havia conhecido no terceiro ano médio de sua antiga escola. Ele cresceu escutando que o amor era essencial para viver e que a felicidade só era possível nesse caminho. No entanto, ele achara essa ideia ridícula e o era, nunca pensou que um dia pudesse amar, mas amou; amou de uma forma singular, que sua vida, assim como a sua alma era apenas uma ínfima parte perdida no vácuo do tempo sem a presença de Letícia. Ele torna ao quarto e volta a meditar.

— Irei de me recuperar, irei de me recuperar… Acharei um caminho, terei uma solução…

E assim passaram-se semanas, a repetição das mesmas palavras de algum modo o acalmava e mesmo que tentasse parar não conseguia, havia se tornado involuntário como o piscar dos olhos. E acelerava a repetição a cada vez que parecia sentir a respiração de Letícia esquentar seu ouvido ou quando a sua voz vinha à cabeça. Certa vez deitou com os pés fora da cama e sentiu-a acalenta-los de uma forma divina e sensual que por instantes sorriu. Deitar naquela posição virou hábito, mas nunca mais sentiu o afago. Letícia havia frequentado algumas vezes a casa de Theo, as últimas foram por ter ficado de recuperação em história para ele ensina-la. Foram nessas rasas visitas que Norma e Letícia se conheceram. Theo saía do quarto para jantar, estava faminto, a sopa no fogão ainda estava borbulhando. Norma olha para ele com um ar de desentendida e pergunta: porque Letícia nunca mais veio aqui? Theo pensou em emergir o rosto da sua mãe na panela fumegante, mas respondeu friamente: Não sei. Ameaçou voltar, mas esperou pela sopa observando Norma cortar os legumes pedaço por pedaço, e analisava aquela ação de modo penetrante.

— Mãe, deixe-me cortar os legumes. — Falou já se aproximando.

— Cuidado para não se cortar.

Movimentou a cabeça apenas e começou a cortar de maneira violenta. Minutos depois Norma volta.

— Não se faz sopa apenas com beterrabas, vá lavar suas mãos, isso parece até sangue.

Theo lava as mãos e volta para o quarto. Deita com os pés fora da cama, cruza os braços atrás da cabeça e inevitavelmente volta a pensar em Letícia, pensa no seu olhar atento e sorriso tímido, lembrava também das sessões de cinema, pois que era a única forma de passar algum tempo ao seu lado sem fazer-lhe revelações. Ele queria ter sentido o amargo na boca de Letícia, mas o que sentiu foi uma doçura nos lábios que os beija-flores jamais sentiram nos bicos. O mal das drogas é o fato dela nos causar dependência e o amor não é diferente, talvez seja a pior das drogas ou pelo menos o pior dos vícios, pois não se encontra em cada esquina e nem se troca por dinheiro, amor é coisa perigosa. Theo preocupava-se com a hora que Letícia saia do trabalho, era perigoso o caminho que ela percorria a pé. Então certo dia Theo convencido de fazer uma surpresa, resolveu pega-la no trabalho, tarde demais, seu colega de expediente já estava levando-a, para onde? Ficou sem saber, o que ficou em sua cabeça foi apenas a imagem do beijo no carro, mas como lhe doía. Mas tarde seu pai bate na porta.

— Quando eu voltar não quero ver você mais nesse quarto. Sim, e ajeite uns livros que deixou à dias sobre a estante.

Instantes depois, Theo vai a dispensa no final do corredor, passa pelo quarto da sua mãe que estava dormindo com a porta aberta, confere por alguns segundos e continua a andar até o destino. Começa a empilhar os livros um a um. Levanta a vista e vê a caixa onde seu pai esconde o revólver, um 38 preto, modelo antigo, as balas estavam enroladas em uma flanela separadamente. Theo volta a ter crises de repetição.

— O que está morto não sente dor, o que está morto não sente dor…

Decidiu colocar um ponto final. Não seria renunciar a vida, mas sim ao sofrimento. Todos dizem que o suicídio é para os fracos, digo que não, o suicídio, meus amigos, é para os fortes. Theo foi corajoso mais de uma vez. Seu coração saltava para garganta, pés e mãos pingavam e pernas tremiam. Colocou uma única bala na bola do revolver e fechou, brincou de roleta Russa consigo mesmo, lembrou de Dostoievski, sentiu na pele e na boca o sabor do jogo, tão forte quanto Alexei Ivanovich. Rolou o cartucho, encostou no ouvido, parou, puxou o gatilho, nada. Rolou novamente, parou, encostou no ouvido, puxou o gatilho, nada. Parecia não ser o seu dia. Rolou pela terceira vez, avistou Otelo, estava empoeirado em cima da estante, havia lido na infância, mas a história ainda estava fresca em sua mente e o comoveu. Surgiu-lhe uma nova ideia e parecia-lhe genial, mudou os planos. Norma acorda para beber água e vê a porta do quarto de Theo entreaberta e chama por ele.

— Theo, onde você está? Theo…

Devolve o revólver rapidamente à caixa, levanta de um salto e sai da despensa.

— Estava ajeitando os livros que o papai me pediu antes de sair.

— É bom ver você fora desse quarto de novo. Estar se sentindo melhor?

— Nunca estive tão bem, mamãe.

— E porque está de óculos escuro à noite?

— Você é que dorme cedo demais. Exclamou Theo.

— Esse menino está ficando louco! Falou Norma, Franzindo as sobrancelhas.

Theo vai até a sala, senta na poltrona, coloca os fones de ouvido e escuta repetidamente a mesma música. Há dias não dormia, mas agora pesara os olhos, sentia falta do sono que tardava, pois o julgava necessário para que pudesse sonhar, era como uma pausa na infelicidade, uma trégua para a paz. Mas seu pai, Afonso, o acordou com um toque no ombro.

— Eu e sua mãe vamos fazer umas compras, voltaremos um pouco tarde, feche as portas quando for dormir.

— Certo.

Assim que Theo deixou de ouvir o barulho do carro de seus pais, tratou de ir até a garagem e pegar uma picareta e uma pá, foi até seu quarto, afastou a cama e começou a golpear o chão até quebra-lo, usou a pá e escavou cerca de um metro e meio, não sentia mais seus braços e teve de cessar o trabalho. Saiu do quarto e foi até o banheiro para livrar-se da sujeira antes que seus pais chegassem. Quando mais tarde retornou para dormir, só que agora o espaço estava bem reduzido e precisava terminar logo o serviço. Naquela noite não teve lembrança de Letícia, estava cansado demais para pensar. Entretanto, alguns sonhos felizes o abordaram sob o cobertor macio, mas os pensamentos infames e infelizes sempre o afogava ao despertar. Tempos depois o sol entrava pela pequena janela no fundo do quarto, já era um novo dia. Theo foi na despensa e pegou o revolver, a bela que ele havia colocado ainda estava lá, só que agora não era para ele, encarregou-se de completar os outros cinco buracos para não haver falhas e guardou em seu quarto, fechou a porta de chave para que ninguém entrasse. Desceu o corredor e foi merendar. Comeu três pães com queijo, duas fatias de bolo e duas xícaras de café. Necessitava repor as energias do trabalho exaustivo do dia anterior.

— Excelente apetite, disse sua mãe.

— Verdade, parece até que cavei um poço ontem.

— Fico feliz de ver você com irreverência e apetite. Falou norma com um sorriso de um canto a outro.

Norma dá um beijo em Theo e sai para trabalhar. Theo sussurra com a xícara perto da boca e toma o último gole de café.

— Você tem sorte por papai não te amar.

Norma volta e diz asperamente: o que você falou?

— Não, não falei nada!

Norma finge não ter ouvido e sai com lágrimas nos olhos sem olhar para trás. Quando Theo era criança presenciou pela brecha da porta uma discussão dos seus pais, viu Afonso dizer que sua mãe o tinha traído quando ainda namorados, e que não soube como pôde a ter perdoado. Theo concluiu que se ele a perdoou foi porque não a amava, se a amasse a teria matado.

A noite chega, era uma sexta-feira. Theo guardou na bolsa alguns sacos de lixo que ficava no armário da cozinha, vai no quarto e pega o revólver e o esconde na cintura sob a camisa. Volta para sala onde seu pai estava assistindo.

— Vou sair no carro.

— Para onde? Pergunta Afonso, sem desviar os olhos da televisão.

— Beber com os amigos, pode dormir tranquilo, volto tarde.

Theo estaciona o carro em frente ao trabalho de Letícia, sabia que ela saia nove e meia, teve medo da cena se repetir. Até que ela saiu, para seu alívio, desacompanhada. Foi como ter visto um anjo, seu corpo tremia sem parar, sua respiração trepidava, sentiu a ânsia do cardíaco. Esperou ela descer alguns metros, engatou a marcha com dificuldade, aproximou-se de Letícia dando a impressão de que a teria encontrado por acaso. Fingiu um olhar de surpresa, acenou com a mão e parou o carro.

— Vamos, vou lhe deixar em casa.

Letícia olhou assustada, não esperava falar com Theo nunca mais, tentou ligar para ele diversas vezes, mas todas sem êxito. Ela não compreendia o motivo dele ter sumido assim tão de repente. Titubeou para entrar no carro. O assento estava correto, mas ele resolveu ajustar para se aproximar e sentir outra vez seu cheiro. Trocaram poucas palavras.

— Decidiu qual faculdade fazer, Letícia?

— Letras. E você?

— Pretendo trabalhar.

— Você sempre gostou tanto de estudar. Mas em que você pretende trabalhar?

— De coveiro. Respondeu Theo com um pequeno sorriso de canto de boca. Brincadeira, Letícia, no comercio. Não sei por que, mas sinto que posso levar jeito pra coisa. Posso te levar para um lugar antes de deixa-la em casa?

— É melhor não, amanha tenho que me acordar cedo.

—Vamos, prometo ser rápido, sem falar que ninguém sabe o dia de amanhã.

— É, pois seja rápido.

Theo a levou para o mirante, um lugar alto que dava vista para toda a cidade, foi onde deram o primeiro beijo. Ela deitou sobre a grama a contemplar as estrelas, apontou para o cruzeiro do sul, nunca mudava e era lindo. Seu corpo esparramado no chão com os braços abertos em forma de cruz o crucificava. Theo não desejava passar a humilhação de cristo, não queria carregar o peso da própria cruz, certamente não suportaria. Passou demasiado tempo observando-a da cabeça aos pés como que cuidadosamente fazendo cálculos internos, e concluiu que não poderia por o plano em prática naquela noite, teria de ir urgente a seu quarto, pegar a picareta e aumentar a cova.

Rafael.M.Araujo

 

 

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