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Desanuviar

28/02/2012
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Estava na despensa procurando algum livro para ler – na verdade, para acalmar a mente. Mas nada agradou; havia alguns exemplares velhos de livros velhos que não serviam pra nada, apenas mania de guardar o passado. E valia a pena? Se fosse possível recriá-lo…

Virou-se para ir à cozinha e se deparou com o espelho à sua frente. Encarou o reflexo como a um estranho – de fato não reconhecera quem estava ali, pêlos no rosto, cabelo desgrenhado, o corpo debilitado e o olhar vago. No que havia se tornado? Nunca havia pensado naquilo e, certamente, precisava de tempo para responder a essa pergunta.

Deitou-se procurando sossego, estava cedo para dormir, ainda que fosse viajar cedo no dia seguinte. Não tinha certeza se era a coisa certa a fazer, revirar o que se resolveu. Era como exumar o cadáver daquele que se foi sem lhe direcionar um último olhar que te espantaria as angústias e traria as respostas. O cadáver está morto. Não olha. Não age. Não muda.

O que havia feito de si? Estava sozinho. Revirou o baú da memória e constatou que não mereceu presente melhor. Castigo divino ou conseqüência natural? Era cético demais para crer em divindades, destino… se nada é divino, mas humano, as escolhas tornam-se ambíguas conforme os olhos de quem vê. Para ele, naquele momento, era o certo a fazer. Com a maturidade vem a noção do que deve ser feito. Descobrira muito tempo depois. Era um bom argumento.

Levantou-se, foi à despensa, abriu um armário com discos velhos e pegou um que estava indiferente a todo aquele amontoado de registros musicais e sentimentais porque sabia que era mais significativo que ele, quase onipotente. Voltou ao quarto e pôs aquele disco para tocar. Sabia que ele ocasionaria reflexos condicionados, o que de fato aconteceu. Inquietou-se absurdamente, a música golpeava-lhe sobremodo e com tal ímpeto que por muito pouco deixou-se render àqueles golpes de consciência. Levantou-se do chão, quebrou o disco e teve a certeza do que deveria ser feito.

Foi ao piano, compor uma música. Começa lenta, arpejos tristes e encurralados, desesperados. A mão direita sola notas que dizem algo… a mão esquerda replica, sem concordar, mas a mão direita precisa daquilo. Entram em acordo, começa um novo tema. Unem-se em acordes maiores que se prolongam de forma harmônica, como se não houvesse desentendimento. E não havia – por que haveria? As notas ecoam solitárias, bastando umas às outras para prosseguirem na melodia, que se desenvolve como mágica, até o gran finale, em que elas se unem e desencadeiam progressões em sintonia extrema e então subitamente termina. Fica alguns minutos imaginando o sabor da resolução da vida. Mas a música não terminou, assim como não se resolveram seus conflitos. Precisava dormir. Acordaria cedo no dia seguinte.

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