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Sem

07/11/2011

Depois de anos envolto pela névoa do esquecimento, podia de novo sentir-se a si mesmo. A reconfortante sensação de domínio sobre si mesmo havia deixado de existir, mas havia agora uma fagulha, emanada não-se-sabe-de-onde, que fez seu âmago ressuscitar. Talvez as memórias de um passado longínquo despertaram a sensação de vazio em um pedaço de sua vida. Parecia que em determinado momento, tinha deixado de existir por completo. Nada mais doloroso que o tempo perdido!

Tinha planos: o imediato era reconstruir o espaço de existência branca na sua trajetória, revendo os amigos, que diziam desconhecer aquele novo que se mostrava insistentemente na forma do antigo, grande pessoa, e dizer, em voz alta, de peito cheio: “Eu voltei!”; depois, cuidaria de reestruturar sua vida, procurar um emprego, uma mulher, quem sabe. Depois de anos…

Andando à rua sentia uma tênue sensação de desconforto, estava mesmo ali? E ali era onde queria realmente estar? Olhares tortos fuzilavam sua carne e atormentavam sua debilitada mente. Tomou a si mesmo à casa do seu melhor amigo.

Se o tempo não foi cruel comigo, ele ainda mora aqui. Queria exercitar a amizade, um rosto amigo seria crucial nesse retorno, mas ninguém responde. Do lado de dentro da casa havia apreensão e receio por abrir a porta, que, excitada por aquele momento, escancarou-se subitamente. Do lado de fora, fitou aquele olhar seco e apático e foi o necessário para compreender que o tempo não foi tão camarada assim.

Nas ruas buscava um alento de olhares desconhecidos. Parece que sua existência novamente começara a se desintegrar. O reflexo nas poças d’água era fraco, sua presença era sentida com um esforço que ninguém queria promover, era o fim. Terminou sem amigos, sem história, sem planos, sem si mesmo, sem nada. Fadado ao esquecimento.

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One Comment leave one →
  1. 17/11/2011 12:52

    Já dizia Clarice que sempre haverá outros dias, outros amores e outras coisas.
    Fica bem mais fácil suportar qualquer tormenta, tristeza ou dia de cão quando você sabe que por mais que pareça clichê, tudo realmente passa. Uma dor tem extamente a intensidade que damos a ela. Quanto mais nos queixamos de um fardo mais ele pesa, e haverá uma hora que vai ficar insuportável.
    O bom mesmo se ligar, pois por mais que tudo pareça meio sem rumo, nunca se sabe a coisa boa que a maré trará em um outro dia.

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