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Damião não sabe rezar

04/11/2011
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Em estado de graça pelos últimos acontecimentos, Damião queria aproveitar o bom momento. Da fartura na mesa à prosperidade nos negócios, havia um clima fértil em sua casa. Sem pensamentos negativos, sem abrir a porta pro demônio, tudo “conforme os desígnios do Senhor”, dizia sua mãe, religiosa praticante, como toda a ascendência.

A descendência, por sua vez, estava arruinada. Damião era o mais velho de quatro filhos – três homens e uma moça e nenhum deles seguiu as tradições familiares. O primogênito era tanto azarado quanto desastrado, embora trabalhador, de maneira que todos se admiraram com sua aparente prosperidade econômica. Foi deixado pela ex-mulher, que acreditava piamente nunca ser feliz com aquele fracassado em sua companhia; o segundo era uma fera indomável, não havia mulher, trabalho, religião nem nada que o colocasse nos eixos; o terceiro era um rapaz melancólico, avesso a multidões, barulho, contato humano. Queria mesmo escrever, ainda que não obtivesse sucesso: o importante era extravasar suas angústias; a última, a moça, era uma incógnita: ninguém sabia se era recatada ou uma sensual máquina de desvirginar rapazinhos; houve um boato de estar grávida, mas, nunca se soube na realidade – ou abortou ou deu à luz sem que ninguém percebesse ou era apenas um boato mesmo. Assim, era um quebra-cabeça infernal, pois quando se imaginava querer leite, alvoroçava a casa querendo café. Tais eram os irmãos, que não sobrou espaço em suas desconcertadas cabeças para a religião. “Também, com o funaré que foi a educação de vocês, não poderiam sair boas peças”, dizia a bisavó.

Numa quinta-feira ensolarada Damião foi à ruína. Naquele momento ninguém soube o que fazer. Uns acreditavam ser castigo do céu, pois não criam que rapaz tão azarado pudesse enriquecer daquela forma senão por maneira contrária à ética divina. Outros acreditavam que era a lei da compensação – o que vem fácil, vai fácil. Nem um, nem outro: conforme se descobriu muitos anos mais tarde, Mateus, o segundo irmão, se perdia no jogo e na farra, e usava secretamente do dinheiro de Damião. Assim como esperado, na família houve uma grande comoção com o fracasso de um igual e todos se uniram para uma grande oração de uma semana em favor de Damião, rapaz bom como esse merece sorte melhor na vida. Mas Damião não sabia rezar, nunca soube. E mesmo que soubesse, já estava decidido.

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