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01/11/2011

Saindo do trabalho, era uma noite limpa, céu claro de estrelas. Sentei-me na praça, esperando o motorista chegar! Acendi um Gudang Garam, para relaxar um pouco depois do dia exaustivo. De repente me peguei contando as estrelas que apareciam e sumiam entre a fumaça… parei na 23ª…

Foi o dia em que a gente se conheceu. Tão linda, num vestido simples, mas perfeito nela! Setei-me ao seu lado no Bar do Xandão, e começamos a conversar. A partir daí é mesma estória de todos os casais, encontros, beijos, sexo e declarações. E me sentia feliz. Não sei se foi amor, mas do que senti até hoje foi o mais forte de todos. Até uma quarta-feira chuvosa… Ela me disse o que não devia ter dito: Estou grávida.

Minha primeira reação foi a mais óbvia: Aborta, some com essa criança, não tem, enfim, não dá! Saí desesperado, naquela época, em um Fusca Itamar, novo. Me entreguei à fraqueza do vício e bebi, mais que jamais bebera antes. Bebi, como se ébrio fosse possível esquecer. Entra em choque o futuro e o amor. Optei por meu futuro.

No dia seguinte, arrumei as malas e vim para o sudeste. Consegui um emprego de analista júnior, nas empresa que hoje sou presidente depois de longos 25 anos. Confesso, com certo remorso, que não tive mais notícias dela nem do que foi da criança. E todo rapaz que passava com 25 anos, mais ou menos, pensava poder ser meu filho. Isso até me consume e entristece. Mas afinal, a gente foi jovem um dia, e fez coisa errada. E também, já não cabe mais lembrar. Estou tão longe e tão bem agora, talvez tenha sido o certo.

De repente, no meretrício da esquina avistei um vulto vindo em minha direção. Era um mulher um pouco castigada, roupas sujas, mas um tanto recatadas para esse tipo de mulher, e rosto delicado, ainda que sofrido. Aproximou-se, sentou-se ao meu lado, pensei em levantar-me e ela me pediu que não. A voz me pareceu familiar, mas tão longe e tanto tempo depois… não podia ser ela!

– Não se preocupe não vou roubá-lo, Sr. Uster Ramires!

Ela sabia meu nome, olhei-a nos olhos… No sofrimento do olhar daquela mendiga, eu vi, Lavigne Santiago! Era ela. Inerte, não esbocei pretensão alguma de dirigir-lhe a palavra. Então ela continuou:

– Então, as coisas mudaram! Há uns 20 nos atrás, teria ganho um beijo! Mas tudo bem. Creio que não saibas o que ocorreu comigo, afinal foste embora na quinta pela manhã. Então vou contar-lhe: Abandonada e sozinha, cheia de sonhos infantis, não o obedeci. Mantive a gravidez, no quarto mês já não dava para esconder. Então tive que conversar, sozinha, com meus pais. A despeito das minhas pretensões inocentes, meu pai não aceitou da mesma forma que eu, creio que aceitou da mesma forma que você. Então ele me espancou, com tanta força e objetos que nem lembro mais o quanto e quais. E me expulsou de casa. Perdi meu filho, ou nosso filho, na mesma noite devido a surra! Sem emprego, sem estudo, sem teto, sem família, sem você, tive que me manter do jeito mais difícil. Sustento meus vícios e fome com caridade de quem tem uma moeda que lhe seja dispensável. Minha fútil educação não me deixa roubar. Ganho dez, cinquenta centavos e quando alguém dá-me um real, nossa que alegria! Às vezes, quando a abstinência fala mais alto, e não tenho tantas moedas, vendo meu corpo por pouco mais de cinco reais, isso me rende duas pedras e alguns pães! Vim parar aqui com um caminhoneiro que me drogou, estuprou e me largou naquele meretrício. Não sei onde estou, nem tenho como voltar.

Com disfarçada alegria de vê-la novamente, lembrei da música de Benito de Paula, Ah como eu amei! Mas no fundo e monstruosamente forte, senti um alívio, por não ter sido pai, logo, nenhum jovem de 25 anos pode ser meu filho. Cortado de pena, olhei para aquela mulher tão sofrida, com os olhos tristes… os mesmo que vi pelo retrovisor do meu Itamar, ainda incapaz de proferir qualquer expressão, tirei do bolso algo em torno de R$ 124,00. O meu motorista chegou, então dei-lhe a quantia que talvez desse para voltar para o lugar de onde veio, para comer algo e comprar algumas pedras, é claro. E parti novamente, dessa vez, sem nem olhar para trás.

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