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O lixo

19/09/2011
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A tarde acabava.  As obrigações familiares me forçavam agir com ternura. “Não gosto de laços, não gosto de comprimentos”, repetia a mim mesmo enquanto minha avó esperava-me sob o céu cansado das cinco. Os passos já não podiam ser retardados. Curvei-me para o beijo, uma graça, um gracejo a senhora de olhos que haviam sido taciturnos pelos quarenta anos que sucederam a morte do meu avô. Um comprimento de cabeça aos senhores desconhecidos e um sorriso desajeitado a criança. Depois o silêncio dos adultos, interrompido somente pelas palavras balbuciantes da criança que ainda aprendia a falar. Não compreendíamos, mas chacoalhávamos a cabeça em sinal de complacência. A criança brincava com o lixo. Um grito ríspido se fez ouvir. “Pare!”, disse o pai  erguendo a voz e as sobrancelhas de monstro japonês. Ela chora. Passavam-se  segundos e minutos. O pranto não tardava. Estávamos impacientes, queríamos nosso silêncio. Um senhor sacou a carteira e retirou uma nota de R$ 2. A garotinha enxugou as lágrimas, pegou o dinheiro e sorriu.

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