Skip to content

Ultimo devaneio

25/08/2011

             E eu aqui, sentado, olhando vocês chorarem. Querendo acreditar que mais da metade, no máximo, esteja realmente sendo sincero… Há quem chora por tristeza, outros pela dor da perda, alguns, saudade, a maioria porque tem que ser mesmo, é o que geralmente se faz. Mas não é pela intensidade da dor que se mensura a extensão da falta. Na verdade, queria vê-los sorrir, afinal quem sorri ao me ver partindo, é quem soube chorar comigo quando estive perto.

                   Parece que todos estão aqui: Olha, você veio! Deverias usar mais esse tom de roupa, estás linda! E aquele ali, o de óculos… Não o conheço! Esse provavelmente veio por causa da ultima homenagem que terá quando saírem daqui (homenagem essa que, creio eu, seja mais um desencargo de consciência, pelo que não foi feito a tempo, do que de fato um reconhecimento da importância, que efetivamente não tive) open bar e free food, duas vantagens em um evento só. Bom, não é? Mas não estou a culpá-lo, se fosse o contrário, você morto e eu no seu enterro, provavelmente eu faria o mesmo.

                  Também não estou reclamando por ter morrido, está aqui sentado no meu túmulo, olhando vocês. Mas notei algo interessante, e só pude notar agora: A gente passa a vida pagando uma igreja para que ela nos faça acreditar que existe um plano para nós, e agora… Olhando daqui… É com esse sorriso amarelo nos lábios que concluo: O plano era esse! Dizem que depois da morte te levam para um lugar melhor… Enquanto esse frete não chega, continuo sentado, assistindo o espetáculo.

                   Na lápide, escreveram o que eu pedi aos amigos: “Aqui jaz Giori Von Wolf, Rei de um território, seu interior; de um único súdito, o seu coração”. Parti levando um pouco de todos vocês, mas sem ter deixado em ninguém um muito de mim. Sem viúva ou órfãos, mas com vários amores e paixões, que me faltam dedos para enumerar: quentes, fortes e evanescentes. É o que se pode inferir de um boêmio.

                   Terminou. Agora vocês vão embora para viver as suas vidas, como se nada tivesse acontecido hoje, aqui. Talvez um dia, quando ouvir um violão, alguém se lembre de mim, ou quando vir um velho sozinho empunhando uma boa vodka com gelo e limão. Enquanto isso, continuo aqui sentado, esperando que meu investimento na igreja tenha me valido pelo menos um cavalo, para que eu suba em um galope soberano.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: