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Morte no puteiro

16/05/2011

 As putas manavam por toda parte. Eram elas as mães pérfidas dos esfaimados de libidinagem dos confins da cidade, nutriam ardorosamente a todos os filhos lascivos e desregrados do cálice fecundo da carne. Recebia-os em suas casas e profanavam nosso Deus, todas as noites, nas adjacências da igreja de São Vicente. Puteiros e mais puteiros perfilavam-se estupendos na recôndita viela do Senador Pompeu, todos com fachadas arruinadas por um intemperismo transcendental que me abduzia a um vislumbre onírico do inferno. Uma dessas fachadas principalmente impressionou-me; era distinta. No flanco superior havia meia dúzia de anjinhos nus em alto relevo, esculpidos idealmente na candidez do gesso e da ingenuidade; algo bastante invulgar naquelas bandas. Impudicas ações, termos onerosos, isentos de algum racato, a toda hora, faziam a prodigiosa candura das esculturas sumir na violência de um contraste escandaloso. A pintura da fachada plagiava o amarelo defunto das arvores ounonianas, o que, junto a algumas rachaduras debruçava sobre o edifício um crepúsculo de melancolia. Eu observava embasbacado aquilo tudo; confesso que era difícil reconhecer ali, em carne e osso, uma realidade outrora mitológica nas descrições do meu pai. As putas, as quais eu imaginava primores da mocidade, desmistificaram todas as minhas tenras concepções. Nada tinham de formosas, eram velhas, feiíssimas, sorriam como bruxas que carbonizavam criancinhas. Eu, ainda assim as admirava, trabalho difícil era a de puta, trabalho honesto, entretanto, e muito simpático. Ninguém o queria fazer, exceto elas, insensíveis a vergonha, sem acanhamento ou pudor. As putas eram escancaradas em todos os sentidos. Eu abstraía-me com olhar imóvel, estupidez de criança ante a obscenidade prematura.

Em uma parte do percurso, erigiram sobre a escuridão noturna, uma turma de seis rameiras  implorando  para que socorrêssemos a um homem que havia sido alvejado no interior do bordel. Não consigo dar juízo do pavor que me ficou desta parte. Meu coração saltava-me no peito, ameaçando, de quando em vez, sair pela boca de um raro sobressalto que me empurrava para o espaço entre as pernas da minha mãe. Eu tapava os ouvidos, escapuliam-me gritos, os quais minha macheza pueril tardava um nadinha em conter. Uma das putas, aparentemente a mais jovem, chorava com mais veemência, cuspia sobre nós um emaranhado caótico de palavras com a voz aguda e rebelde da puberdade; outra, a mais velha, sexagenária, sequer movia os lábios, verdadeira fortaleza de silêncio que, dadas as circunstâncias não era simples silêncio, mas um genuíno prognóstico. Prognóstico de morte, perante o qual todos os pedidos de socorro se tornaram inteiramente insignificantes. O homem estava morto, estendido sob o céu frio, sobre a chão frio onde minutos antes esteve de pé, vivendo tranquilamente. Eu estava compenetrado daquilo tudo, as imagens corriam na minha cabeça em câmara lenta enquanto eu olhava para trás sobre os ombros da minha mãe. Apagaram-se os últimos focos da gloria noturna sobre aquele triunfo estupendo da infâmia e do horror. Esta é a lembrança mais antiga que tenho. Talvez se eu fosse uma criança impelida por uma conjetura de ingênua cautela, sequer me recordaria deste episódio, de reflexos, entretanto, para mim, e origem de desgostos como jamais encontrei tão amargos.

Autor: José Victor M. de Araujo

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