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Só um homem sentado no banco da praça

25/03/2011
Era uma tarde como outra qualquer, a mesma melancolia de todos os crepúsculos de outono. Mas um um fio de luz vermelha iluminou aquela majestosa acácia, parecia tão triste… E me perdi num vale de lembranças. Naquele instante eu já não era um capitalista, inundado em pressões psicológicas do Grande Ter, eu simplesmente era. Independente da roupa que eu estava, do perfume que usava, talvez o daquela mademoiselle fosse melhor, mas já não importava. Pela primeira vez na vida, esqueci que minha vida tem donos, empresários, esqueci que o meu ser é uma soma de tudo que vejo na TV, e livrei minha mente controlada. Naquele momento, eu era só um homem sentado no banco.
A perfumada mademoiselle, acabara de ser assaltada. Ah, a violências das grandes cidades… O ser humano havia se tornado seu próprio predador, incrível notar os rumos que o capitalismo tomou. A vida de uma mulher, vale menos que um celular e alguns trocados, que provavelmente serão investidos em crack, talvez, a nova rainha dos becos. Olhando em volta vi muros tão altos, e grades tão fortes, que me fizeram sentir inseguro, medo. Aonde foram parar as virtudes que tanto ouvi falar, Liberdade, Igualdade, Fraternidade? Foram elas que marcaram 1789, e que, supostamente, seriam a base constitucional mundial, o modelo de vida pregado sucumbiu ante ao consumismo. Mas a natureza continuava seu trabalho, apesar daquela acácia parecer a mais majestosa, era tão súdita quanto todas as demais, de uma rainha-mãe Natureza. E a harmonia de tudo aquilo me fez lembrar de que eu era só homem sentado no banco.
As mulheres vêem na TV que tem que ser magras, altas, grandes glúteos, seios fartos, e ainda magras. Roupas da moda, estarem sempre iguais, como o ultimo lançamento da Barbie, mulheres produzidas em série, e ainda assim serem originais. Casar como homens fortes, ricos, e de belos sorrisos, e serem subsevientes, e ainda assim mulheres de vontade e direitos iguais. Enfim, ser mulher deve ser eternamente paradoxal, e ainda não sabem porque é tão difícil entendê-las. Mas a aquela folha mais vermelha e brilhante que caia lentamente, me fez lembra do rosto tão lindo que todas elas têm, e das mulheres que amei. Já tive tantos amores, alguns morreram, outros eu matei. Será se ainda havia tempo para ressuscitá-lo? Mas naquele momento, eu era um (eterno apaixonado) homem sentando no banco.
O vento que passava me fez pensar que, enfim tudo passar, e vem as rugas. Cada sulco da minha pele foi uma decepção que tive numa vida em que um sonhador viu morrer todas as virtudes. 40 e poucos anos, imaturamente maturo, solteiro solitário, perdendo a beleza do crepúsculo com pensamentos do que poderia ter sido, vivido, amado: Talvez se tivesse ficado com você, fosse mais feliz. Havia tanto que a gente poderia ter vivido, ainda tenho saudade do teu sol. Se eu tivesse sido mais radical, feito algumas loucuras, fumado um bequi com a turma da faculdade, eu fosse alguém mais vivido, e as loucuras passadas teriam libertado minha mente pequena, restrita, arrependida, enfim. Quem sabe um pouco de adrenalina, hoje faria parte das minhas melhores lembranças, e a morte de tudo que acredito não me causaria este pesar. Talvez se eu não fosse assim… Talvez… Mas hoje, aqui, agora, essa melancolia bucólica me enche de sonhos novamente, alguns bobos, rio só, tão bom se perder em si, e sonhar. Isso, porque, naquele momento estava livre para planar além nuvens, pois eu era só um homem sentado no banco.
Alguma coisa me dizia que não era tarde de mais. Por que não? Se eu ainda sei sonhar, por que não realizar? É só uma questão de atitude, de querer ser feliz. E daí que demore, pelo menos no meu ultimo batimento, o arrependimento que assola meu peito daria lugar a um sentimento de missão cumprida. E se não conseguisse… queria morrer nos braços de alguém que amo muito, e o seu ultimo afago me remeteria a mais um e ultimo sonho. E partiria eterno utópico. Por que não?
O badalar do relógio da Igreja ali perto, chamava os fies para mais uma noite de blasfêmias e me lembrava… Já eram 18:30. Tenho que ir, preciso abastecer o carro e fazer compras, e já vai começar a novela. Novas realizações vão ter que ficar para depois. Talvez até um dia que eu tivesse mais tempo para sonhar comigo, afinal ali eu era apenas um homem sentado no banco.
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  1. 25/03/2011 09:04

    PERFEITO.

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