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Entre a morbidez esquiva da barata

17/12/2010
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Em uma noite sombria e fria, estava eu a fazer os preparativos para meu sono cotidiano, quando me deparei com um ser que não me remetia necessária simpatia, uma barata, porém não uma simples barata, diferia em muito das que eu habitualmente encontrava em minhas dependências. Esta era gigantesca, e ali se mantinha impecavelmente imóvel, exceto pelas torpes antenas que tremulavam descompassadas sobre uma fissura  parca na parede adjacente a minha cama, parca se comparada às extraordinárias dimensões do dorso balofo daquele inseto infame. Confesso que o receio a um vôo destrambelhado prorrogou-me o sono por algumas horas, mas matá-la não me parecia atitude mais correta; afinal que mal a barata havia me feito pra merecer tão severa punição? Nenhum. Equipei-me com uma vassoura apenas para garantir-me caso ela ensaiasse algum movimento ofensivo, o que não ocorreu durante toda a noite. Então fiquei apenas a observá-la atentamente, indagando-me sobre as questões existenciais daquele bicho que, aos poucos, fora angariando minha estima. Creio que a vida ordinária que levava não a causasse deleite; ser recebida corriqueiramente com asco devia melindrá-la por ser o que era. Mas talvez ela tenha feito de sua condição vulgar uma ração para tornar-se imponente; as condenações à morte pelo crime de existir, decerto, contribuíram com uma parcela substancial em seus incríveis sete centímetros de portentosa arquitetura. Era mesmo a maior que eu havia visto. Sua magnitude intrínseca, certamente, foi razão da minha atenção prolongada àquela classe de animais que dantes não me despertava notório interesse. As baratas são insetos ordinários: não voam satisfatoriamente, também não correm satisfatoriamente, são quase cegas, mas para suprimir sua mediocridade desenvolveram uma inaudível capacidade de resistência à morte, e esse foi seu maior trunfo. Suportar as dores como nenhuma outra espécie foi sua única alternativa de sobrevivência, e ela o faz com tanta maestria a despertar-me inveja, eu, um humano, não suportava sequer a dor de uma crítica. Pela manhã, minha companheira incólume, que se mantinha ainda estática, emitiu um som quase imperceptível, mas que meus tímpanos inteiramente concentrados conseguiram captar. Em um estado de quase hipnose, fui de encontro a ela a esperar por um possível aprendizado, que, entretanto não ocorreu, ela captou minha presença e esvoaçou-se desastrada em minha direção; saquei a vassoura e rapidamente decepei-lhe a cabeça com um golpe certeiro. Ela caiu a agonizar no solo. Meu Deus, eu não queria tê-la matado! Meu cérebro esfacelou-se em arrependimentos, da mesma maneira que eu havia feito no da minha camarada que, naquele momento, se debatia a lutar numa resistência vã ao triste elmo da morte. Minha canalhice crassa desvaneceu-me, mas logo tive que suster a custo minhas lágrimas para empenhar-me na construção  de um catre e de um apetrecho para livrá-la das formigas oportunistas que tentavam mirrá-la ao máximo. E assim o fiz; coloquei-a em um caixote improvisado para observá-la em seus últimos momentos, mas seus últimos momentos se prolongaram por uma eternidade; ela lutava e lutava com bravura estupenda, e assim passaram-se dias. O bater de pernas agonizante de minha camarada rebobinou-me a lembranças infames da infância, quando um colega afeminado, o qual não me recordo o nome, me havia alcunhado de sangue de barata. Creio que pela minha covardia em enfrentar os derrotismos cotidianos. Podres palavras, tão voláteis quanto o caráter de quem as proferiu. Quem dera ser como as baratas, bravas, que lutam até a morte, sem covardia nem sangue, pois nem ao menos o tem. E, no final de incríveis oito dias, sem mais forças para resistir, ela se foi; mas não sozinha. Sem rigidez nunca fui a lugar algum, e, aquela barata asquerosa tinha sido minha última chance. Matei meu melhor, embora ele jamais tenha existido.

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2 Comentários leave one →
  1. 18/12/2010 12:17

    Muito massa filé. Gostei muito… só num gostei mais, pq morro de medo de barata. 😀

  2. Oswaldo M. permalink
    17/12/2010 16:13

    ótimo texto. gostei do tema pouco convencional.

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