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Presença, ausência

09/11/2010
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Mãe,

bênção. Preciso confortar meu coração. O peso dilacerante das lembranças e da saudade termina por esgotar-me. Se a angústia das noites vividas era o bastante para ter-te, prefiro a insanidade à solidão. Tentei, Mãe. Juro por todas as crianças órfãs que tentei. Mas ao te ver chorar eu desmoronava. Admito que nunca fui nem sombra do que a senhora esperava, quase como um grão perto de um castelo de areia de expectativas. Fui fraco e prepotente. Egoísta e desmedido. Mas o meu problema é que sou demasiadamente humano. Não poderei servir de exemplo aos meus irmãos, tampouco aos seus netos. Sou fadado à mediocridade e à mesquinharia das quais sou realmente digno. Não suportei a pressão, sucumbi e falhei. Esta carta não te trará de volta, mas… céus! Preciso ludibriar minha consciência para me sentir vivo! Os olhares tortos e afiados que me cercam impedem que eu me refaça, que eu tente melhorar, que mê utilidade além de servir de mau-exemplo. As escolhas têm um peso brutal quando são equivocadas. A incidência visceral dos meus erros me faz lembrar da primeira vez que te desapontei. Jovens são inconsequentes, são errantes, tolos. Perdão. A força incontrolável das mágoas me arrasta a vivacidade. Me arrasta à desgraça. Agora vivo por nada menos que a redenção.

Mãe, sempre tive medo de fantasmas, mas daria minha vida para que a senhora me assombrasse esta noite. Pelo menos sentir tua presença, ainda que distante, corroída e fúnebre, mas minha Mãe.

 

Com o último fio de força,

seu filho.

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3 Comentários leave one →
  1. 01/03/2011 14:48

    Poderia agora, falar várias palavras que me vieram a cabeça no momento que li o seu texto.
    Poderia citar diversos autores que falarm brilhantemente da dor, não da sua dor, pois toda dor é diferente em cada um.
    Todo mundo só pode compreender (e mal) a sua própria dor, mas só a domina quando não é a sua.
    É algo engraçado isso, mórbidamente engraçado a capacidade que temos de diversas vezes analisar o outro melhor do que a nós mesmos…
    Mas enfim, estes autores, estas palavras nunca para nós são o suficiente. Pois por vezes, se apegar a dor, é a ultima tábua para o naufrágo. É a maneira de nos auto punir, e ainda melhor, não esquecer o outro.
    Quando aprenderemos a não nos auto flagelar por erros cometidos? Quando não nos culpar, quando a razão assim o diz, mas continuamos a sentir a culpa a nos remoer?
    A culpa, por vezes nos faz nos sentir vivos, em morte lenta e dolorosa.
    O tempo, aquele velho cliche, que incrivelmente funciona
    “Só o tempo cura”, quando tentamos nos curar.
    A dor só passa, quando queremos que ela passe. E quase nunca (inconscientemente) queremos isso…
    Enfim, vou parar por aqui, seu texto quase me fez criar outro texto…
    Aguardo mais publicações.
    Com o tempo.
    De sua fã.

  2. Nara permalink
    15/02/2011 08:39

    Lí um livro, aliás um clásssico, que me fez reviver para a finitude…sei que temos sempre uma tendencia feroz a fugir do que não há possibilidade de continuidade…do fim do túnel, do abismo na estrada…bem…nele descobrí que sentir a dor não é uma forma de se auto flagelar, nem de fugir dos acasos inóspitos da perda…é sim, antes de tudo, ter coregem de assumir nossa grandiosidade diante da ausencia não aceita…a dor, muitas vezes, é uma forma de reviver a presença, de sentir a mão no rosto, o calor do abraço…o que me lembra mais de alguém que “falta” do que a dor?É a dor que faz o quarto não ser tão vazio, que faz a lágrima não ser tão vã…é preciso passar pela dor…admitir que é pequeno demais pra resistir, que se é “humano demais, demasiadamente humano” pra não chorar…a dor é necessária…!!PArabéns pela grande capacidade de se admitir humano demais…
    xeru

  3. O'hanna permalink
    10/11/2010 11:46

    Não preciso nem dizer que chorei lendo isso né?
    Muito lindo o texto, eu daria isso a minha mãe ;D
    parabéns Vinicius.

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