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Do outro lado do Atlântico

13/09/2016

Do outro lado do Atlântico

 

Cruzo o Atlântico, amordaçado.

Sinto o suor dos meus inimigos tribais.

Não me mataram por que meu sangue era menos glorioso que a cachaça

e outras bugigangas, assim como o deles.

 

Abraçados vimos o sol nascer no Brasil.

Outros irmãos sucumbiram no mar.

Brancos com armas de fogo nos espiam.

Gesticulam para levantarmos, e as pernas tremem.

 

A novos brancos agora pertencemos.

Meu inimigo tribal, agora é meu irmão de senzala.

Nunca antes fomos tão próximos.

Olhamos um para o outro exaustos, e sem falar!

As vezes somos açoitados juntos, e sem gritar!

A noite rezamos juntos, e sem chorar!

 

A nossa esperança havia ficado do outro lado do Atlântico.

Cessamos as orações e as danças aos orixás.

Não queríamos acreditar em vida após a morte,

Já bastava a vida escrava terrena, e temíamos a vida escrava divina.

O suicídio era nosso único conforto, para o descanso último de nossas vidas.

 

Rafael M. de Araujo

 

 

 

 

 

A cova

13/09/2016

A cova

            O natal acabou. Apagaram as luzes, as árvores se desmontaram porque não eram árvores de verdade, eram árvores de natal. Já o peru de natal, esse era de verdade, mas foi desmontado também, desmontado pela fome enquanto todos ansiavam nascimento, mas ninguém nasceu. Norma bate novamente na porta do quarto de Theo.

— Saia do quarto agora, meu filho.

— Depois.

— Não, agora! Fala Norma agravando o tom da voz.

            Desta vez o isolamento de Theo preocupava-a. Certo que não era essa a primeira vez que passava dias enclausurado, mas já se passara uma quinzena. Norma que sempre respeitava seu espaço, por mais doloroso e estranho que fosse para uma mãe. Agora, porém, tornou-se insuportável. Seis horas depois do último chamado Theo apresenta-se a cozinha, pega uma fatia do bolo de milho que estava sobre a mesa e hesita em voltar, mas sua mãe o segura pelo braço e o impede de ir.

— Já respondeu as cartas? Fala norma olhando nos olhos.

— Não! Respondeu friamente.

— O que você estar esperando?

— Não sei, não sei…

— Não se deixa escapar assim oportunidades tão boas, filho.

Theo realmente fora um prodígio durante sua vida escolar e tirara pontuações admiráveis. Esforçou-se para ingressar nas melhores faculdades e teve êxito em todas elas, mas agora não lhe interessava nenhuma. Diversas cartas esperavam sua comprovação, uma assinatura bastava, mas não, ele não queria mais o que correu atrás com toda a sua força. Foi assim de repente, como diria o poeta fluminense: “de repente não mais que de repente”. No fundo Norma sabia qual era a causa, mas não ousara falar, pois já era sabido a reação devido a seu comportamento explosivo, ainda por cima quando se tratava de Letícia Amaro, uma jovem que ele havia conhecido no terceiro ano médio de sua antiga escola. Ele cresceu escutando que o amor era essencial para viver e que a felicidade só era possível nesse caminho. No entanto, ele achara essa ideia ridícula e o era, nunca pensou que um dia pudesse amar, mas amou; amou de uma forma singular, que sua vida, assim como a sua alma era apenas uma ínfima parte perdida no vácuo do tempo sem a presença de Letícia. Ele torna ao quarto e volta a meditar.

— Irei de me recuperar, irei de me recuperar… Acharei um caminho, terei uma solução…

E assim passaram-se semanas, a repetição das mesmas palavras de algum modo o acalmava e mesmo que tentasse parar não conseguia, havia se tornado involuntário como o piscar dos olhos. E acelerava a repetição a cada vez que parecia sentir a respiração de Letícia esquentar seu ouvido ou quando a sua voz vinha à cabeça. Certa vez deitou com os pés fora da cama e sentiu-a acalenta-los de uma forma divina e sensual que por instantes sorriu. Deitar naquela posição virou hábito, mas nunca mais sentiu o afago. Letícia havia frequentado algumas vezes a casa de Theo, as últimas foram por ter ficado de recuperação em história para ele ensina-la. Foram nessas rasas visitas que Norma e Letícia se conheceram. Theo saía do quarto para jantar, estava faminto, a sopa no fogão ainda estava borbulhando. Norma olha para ele com um ar de desentendida e pergunta: porque Letícia nunca mais veio aqui? Theo pensou em emergir o rosto da sua mãe na panela fumegante, mas respondeu friamente: Não sei. Ameaçou voltar, mas esperou pela sopa observando Norma cortar os legumes pedaço por pedaço, e analisava aquela ação de modo penetrante.

— Mãe, deixe-me cortar os legumes. — Falou já se aproximando.

— Cuidado para não se cortar.

Movimentou a cabeça apenas e começou a cortar de maneira violenta. Minutos depois Norma volta.

— Não se faz sopa apenas com beterrabas, vá lavar suas mãos, isso parece até sangue.

Theo lava as mãos e volta para o quarto. Deita com os pés fora da cama, cruza os braços atrás da cabeça e inevitavelmente volta a pensar em Letícia, pensa no seu olhar atento e sorriso tímido, lembrava também das sessões de cinema, pois que era a única forma de passar algum tempo ao seu lado sem fazer-lhe revelações. Ele queria ter sentido o amargo na boca de Letícia, mas o que sentiu foi uma doçura nos lábios que os beija-flores jamais sentiram nos bicos. O mal das drogas é o fato dela nos causar dependência e o amor não é diferente, talvez seja a pior das drogas ou pelo menos o pior dos vícios, pois não se encontra em cada esquina e nem se troca por dinheiro, amor é coisa perigosa. Theo preocupava-se com a hora que Letícia saia do trabalho, era perigoso o caminho que ela percorria a pé. Então certo dia Theo convencido de fazer uma surpresa, resolveu pega-la no trabalho, tarde demais, seu colega de expediente já estava levando-a, para onde? Ficou sem saber, o que ficou em sua cabeça foi apenas a imagem do beijo no carro, mas como lhe doía. Mas tarde seu pai bate na porta.

— Quando eu voltar não quero ver você mais nesse quarto. Sim, e ajeite uns livros que deixou à dias sobre a estante.

Instantes depois, Theo vai a dispensa no final do corredor, passa pelo quarto da sua mãe que estava dormindo com a porta aberta, confere por alguns segundos e continua a andar até o destino. Começa a empilhar os livros um a um. Levanta a vista e vê a caixa onde seu pai esconde o revólver, um 38 preto, modelo antigo, as balas estavam enroladas em uma flanela separadamente. Theo volta a ter crises de repetição.

— O que está morto não sente dor, o que está morto não sente dor…

Decidiu colocar um ponto final. Não seria renunciar a vida, mas sim ao sofrimento. Todos dizem que o suicídio é para os fracos, digo que não, o suicídio, meus amigos, é para os fortes. Theo foi corajoso mais de uma vez. Seu coração saltava para garganta, pés e mãos pingavam e pernas tremiam. Colocou uma única bala na bola do revolver e fechou, brincou de roleta Russa consigo mesmo, lembrou de Dostoievski, sentiu na pele e na boca o sabor do jogo, tão forte quanto Alexei Ivanovich. Rolou o cartucho, encostou no ouvido, parou, puxou o gatilho, nada. Rolou novamente, parou, encostou no ouvido, puxou o gatilho, nada. Parecia não ser o seu dia. Rolou pela terceira vez, avistou Otelo, estava empoeirado em cima da estante, havia lido na infância, mas a história ainda estava fresca em sua mente e o comoveu. Surgiu-lhe uma nova ideia e parecia-lhe genial, mudou os planos. Norma acorda para beber água e vê a porta do quarto de Theo entreaberta e chama por ele.

— Theo, onde você está? Theo…

Devolve o revólver rapidamente à caixa, levanta de um salto e sai da despensa.

— Estava ajeitando os livros que o papai me pediu antes de sair.

— É bom ver você fora desse quarto de novo. Estar se sentindo melhor?

— Nunca estive tão bem, mamãe.

— E porque está de óculos escuro à noite?

— Você é que dorme cedo demais. Exclamou Theo.

— Esse menino está ficando louco! Falou Norma, Franzindo as sobrancelhas.

Theo vai até a sala, senta na poltrona, coloca os fones de ouvido e escuta repetidamente a mesma música. Há dias não dormia, mas agora pesara os olhos, sentia falta do sono que tardava, pois o julgava necessário para que pudesse sonhar, era como uma pausa na infelicidade, uma trégua para a paz. Mas seu pai, Afonso, o acordou com um toque no ombro.

— Eu e sua mãe vamos fazer umas compras, voltaremos um pouco tarde, feche as portas quando for dormir.

— Certo.

Assim que Theo deixou de ouvir o barulho do carro de seus pais, tratou de ir até a garagem e pegar uma picareta e uma pá, foi até seu quarto, afastou a cama e começou a golpear o chão até quebra-lo, usou a pá e escavou cerca de um metro e meio, não sentia mais seus braços e teve de cessar o trabalho. Saiu do quarto e foi até o banheiro para livrar-se da sujeira antes que seus pais chegassem. Quando mais tarde retornou para dormir, só que agora o espaço estava bem reduzido e precisava terminar logo o serviço. Naquela noite não teve lembrança de Letícia, estava cansado demais para pensar. Entretanto, alguns sonhos felizes o abordaram sob o cobertor macio, mas os pensamentos infames e infelizes sempre o afogava ao despertar. Tempos depois o sol entrava pela pequena janela no fundo do quarto, já era um novo dia. Theo foi na despensa e pegou o revolver, a bela que ele havia colocado ainda estava lá, só que agora não era para ele, encarregou-se de completar os outros cinco buracos para não haver falhas e guardou em seu quarto, fechou a porta de chave para que ninguém entrasse. Desceu o corredor e foi merendar. Comeu três pães com queijo, duas fatias de bolo e duas xícaras de café. Necessitava repor as energias do trabalho exaustivo do dia anterior.

— Excelente apetite, disse sua mãe.

— Verdade, parece até que cavei um poço ontem.

— Fico feliz de ver você com irreverência e apetite. Falou norma com um sorriso de um canto a outro.

Norma dá um beijo em Theo e sai para trabalhar. Theo sussurra com a xícara perto da boca e toma o último gole de café.

— Você tem sorte por papai não te amar.

Norma volta e diz asperamente: o que você falou?

— Não, não falei nada!

Norma finge não ter ouvido e sai com lágrimas nos olhos sem olhar para trás. Quando Theo era criança presenciou pela brecha da porta uma discussão dos seus pais, viu Afonso dizer que sua mãe o tinha traído quando ainda namorados, e que não soube como pôde a ter perdoado. Theo concluiu que se ele a perdoou foi porque não a amava, se a amasse a teria matado.

A noite chega, era uma sexta-feira. Theo guardou na bolsa alguns sacos de lixo que ficava no armário da cozinha, vai no quarto e pega o revólver e o esconde na cintura sob a camisa. Volta para sala onde seu pai estava assistindo.

— Vou sair no carro.

— Para onde? Pergunta Afonso, sem desviar os olhos da televisão.

— Beber com os amigos, pode dormir tranquilo, volto tarde.

Theo estaciona o carro em frente ao trabalho de Letícia, sabia que ela saia nove e meia, teve medo da cena se repetir. Até que ela saiu, para seu alívio, desacompanhada. Foi como ter visto um anjo, seu corpo tremia sem parar, sua respiração trepidava, sentiu a ânsia do cardíaco. Esperou ela descer alguns metros, engatou a marcha com dificuldade, aproximou-se de Letícia dando a impressão de que a teria encontrado por acaso. Fingiu um olhar de surpresa, acenou com a mão e parou o carro.

— Vamos, vou lhe deixar em casa.

Letícia olhou assustada, não esperava falar com Theo nunca mais, tentou ligar para ele diversas vezes, mas todas sem êxito. Ela não compreendia o motivo dele ter sumido assim tão de repente. Titubeou para entrar no carro. O assento estava correto, mas ele resolveu ajustar para se aproximar e sentir outra vez seu cheiro. Trocaram poucas palavras.

— Decidiu qual faculdade fazer, Letícia?

— Letras. E você?

— Pretendo trabalhar.

— Você sempre gostou tanto de estudar. Mas em que você pretende trabalhar?

— De coveiro. Respondeu Theo com um pequeno sorriso de canto de boca. Brincadeira, Letícia, no comercio. Não sei por que, mas sinto que posso levar jeito pra coisa. Posso te levar para um lugar antes de deixa-la em casa?

— É melhor não, amanha tenho que me acordar cedo.

—Vamos, prometo ser rápido, sem falar que ninguém sabe o dia de amanhã.

— É, pois seja rápido.

Theo a levou para o mirante, um lugar alto que dava vista para toda a cidade, foi onde deram o primeiro beijo. Ela deitou sobre a grama a contemplar as estrelas, apontou para o cruzeiro do sul, nunca mudava e era lindo. Seu corpo esparramado no chão com os braços abertos em forma de cruz o crucificava. Theo não desejava passar a humilhação de cristo, não queria carregar o peso da própria cruz, certamente não suportaria. Passou demasiado tempo observando-a da cabeça aos pés como que cuidadosamente fazendo cálculos internos, e concluiu que não poderia por o plano em prática naquela noite, teria de ir urgente a seu quarto, pegar a picareta e aumentar a cova.

Rafael.M.Araujo

 

 

Desanuviar

28/02/2012
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Estava na despensa procurando algum livro para ler – na verdade, para acalmar a mente. Mas nada agradou; havia alguns exemplares velhos de livros velhos que não serviam pra nada, apenas mania de guardar o passado. E valia a pena? Se fosse possível recriá-lo…

Virou-se para ir à cozinha e se deparou com o espelho à sua frente. Encarou o reflexo como a um estranho – de fato não reconhecera quem estava ali, pêlos no rosto, cabelo desgrenhado, o corpo debilitado e o olhar vago. No que havia se tornado? Nunca havia pensado naquilo e, certamente, precisava de tempo para responder a essa pergunta.

Deitou-se procurando sossego, estava cedo para dormir, ainda que fosse viajar cedo no dia seguinte. Não tinha certeza se era a coisa certa a fazer, revirar o que se resolveu. Era como exumar o cadáver daquele que se foi sem lhe direcionar um último olhar que te espantaria as angústias e traria as respostas. O cadáver está morto. Não olha. Não age. Não muda.

O que havia feito de si? Estava sozinho. Revirou o baú da memória e constatou que não mereceu presente melhor. Castigo divino ou conseqüência natural? Era cético demais para crer em divindades, destino… se nada é divino, mas humano, as escolhas tornam-se ambíguas conforme os olhos de quem vê. Para ele, naquele momento, era o certo a fazer. Com a maturidade vem a noção do que deve ser feito. Descobrira muito tempo depois. Era um bom argumento.

Levantou-se, foi à despensa, abriu um armário com discos velhos e pegou um que estava indiferente a todo aquele amontoado de registros musicais e sentimentais porque sabia que era mais significativo que ele, quase onipotente. Voltou ao quarto e pôs aquele disco para tocar. Sabia que ele ocasionaria reflexos condicionados, o que de fato aconteceu. Inquietou-se absurdamente, a música golpeava-lhe sobremodo e com tal ímpeto que por muito pouco deixou-se render àqueles golpes de consciência. Levantou-se do chão, quebrou o disco e teve a certeza do que deveria ser feito.

Foi ao piano, compor uma música. Começa lenta, arpejos tristes e encurralados, desesperados. A mão direita sola notas que dizem algo… a mão esquerda replica, sem concordar, mas a mão direita precisa daquilo. Entram em acordo, começa um novo tema. Unem-se em acordes maiores que se prolongam de forma harmônica, como se não houvesse desentendimento. E não havia – por que haveria? As notas ecoam solitárias, bastando umas às outras para prosseguirem na melodia, que se desenvolve como mágica, até o gran finale, em que elas se unem e desencadeiam progressões em sintonia extrema e então subitamente termina. Fica alguns minutos imaginando o sabor da resolução da vida. Mas a música não terminou, assim como não se resolveram seus conflitos. Precisava dormir. Acordaria cedo no dia seguinte.

Depois do Carnaval, Hora de Pensar

24/02/2012

Depois de passar cerca de um mês envolvido tanto física, ao andar por horas pelas ruas e bairros de minha cidade, que eu mal conheço, e de me perder pelo menos duas vezes, quanto emocionalmente, digitando textos e me estressando com a dificuldade de se encarar de fato a tal Administração Pública, resolvi me expressar com esta síntese, um tanto informal, de uma parte do conhecimento adquirido e do meu senso crítico.

 
Percebe-se, ao andar por alguns bairros do município e separando uns poucos minutos de seu tempo corrido para conversar com os habitantes dessas localidades esquecidas pelo poder público, o quanto de exaustão há nestas pessoas, seja por conta de um esgoto fétido cortando pela rua e por um rato em estado de decomposição próximo a tal água imunda, seja pelas ruas esburacadas e pelas calçadas desniveladas, seja pela falta de espaços verdes para seus filhos brincarem sem preocupações, ou seja, simplesmente, pelo fato de a prefeitura se encontrar a menos de 200 metros dali.

 

“Mas são problemas generalizados! É assim por todo o país…” dizem uns. “E quanto àquela máxima que ‘para todo problema há uma solução’?” pergunto eu; tanto tempo se passou desde a redemocratização do país e do Plano Real e uma única solução não foi encontrada. Saber que um esgoto correndo a céu aberto é um erro, que o lixo tem que ser retirado e que obras de grande porte precisam ser feitas para melhoria, por exemplo, de ruas e, diga-se, do canal, todos sabem. Porém, quem é o encarregado dessas benfeitorias, a quem recorrer nessas horas? Às esferas municipal, estadual ou federal? “E agora, quem irá nos defender?” pergunta a vítima, mas os heróis dos quadrinhos não estão à solta por aí. É uma pena, mas nós somos nada mais que humanos. Todavia, para não correr o risco de ser ingênuo, é preciso admitir que aquela vítima também tem sua parcela de culpa, ao jogar lixo nas ruas, em bueiros, no canal, ao construir de maneira ilegal, ao ser omisso e não cobrar seus direitos, ao não aprender com os erros cometidos no passado, enfim. Neste filme fica difícil distinguir quem é o mocinho e quem é o vilão.

 
Muito se tem falado da ascensão do Brasil como 6ª potência econômica mundial e, conseqüentemente, das novas portas comerciais que se abrem para este novo gigante emergente, contudo ao ser feita uma análise apurada, menos encantada e mais crítica, pode-se perceber que o mesmo país que quer ter presença atuante nas problemáticas internacionais, passando a imagem de “educador ríspido” que conseguiu se erguer e tornar-se um modelo para os demais, na realidade, infelizmente, não consegue atender as necessidades mais básicas de bem-estar, de qualidade de vida, do seu próprio povo. Se você não quer se comprometer andado e constatando pelas ruas, basta procurar o IDH do país e compara-lo com o PIB para se assustar com o abismo que há entre os dois. Ainda mais: tem muita gente empregada nos mais diversos setores públicos, mas fica aquela sensação de inércia, é muito para pouca coisa: são mais de 25 mil cargos públicos indicados direta ou indiretamente pelo chefe do Executivo; na Inglaterra, esse número quase não supera 100 destes. Precisa-se atender ao princípio da meritocracia, onde os méritos pertencem a quem se esforçou para tanto.

Logo, vê-se a disparidade tamanha da imagem fictícia e da imagem real do Brasil. A conclusão, a senso comum, que nos resta, alunos de Direito e demais cidadãos, é batalhar para mudar tal realidade e manter a esperança, que é a última que morre, no nosso povo e na nossa terra.

Armadura de papel

23/12/2011

Sou eu que vou guardar teu sono
Eu e minha espada de brinquedo
Afastando o que te faz tanto medo
Minha princesa, meu bom sonho

Há três palmos do chão, gigante
Sorriso desdentado que brilha
Deixa eu guardar teu semblante
Te guardar como minha filha

Se vestir a minha armadura
Jamais o choro te tira do céu
Farei na cavalaria investidura
Se vestir a armadura de papel

Serei teu mais fiel cavaleiro
O mais poderoso gladiador
Às armas más dou meu peito
Tudo para não sentires dor

Mas se chorar, o coração dói
Se me pede um abraço ele ri
Castelo que o amor constrói
Foi para isso que afinal vivi

Me perdoa, se quando desatina
Te querer sempre uma menina
Mas foi assim que te quis amar
É como o cavaleiro vai guardar

Posto que vai crescer e partir
Para ser a mais linda mulher
Mas no fundo o que tio quer
É ver, ainda sem dente, sorrir

Esse é o sorriso que vai brilhar
Na minha armadura de papel

Pedras sem nexo

23/12/2011

Eu vejo o mundo bem, mas eu enxergo tão mal
Pedra por pedra a gente constrói castelos
A questão é que às vezes são castelos de areia
Vocês consideram a fragilidade da construção
Eu só só me preocupo em contar as pedras

Considerando que há pedras no caminho
Uma pedra grande pesa, mas é só uma
O mesmo espaço ocupado grãos de areia
Tendo que ser removidas um a um…
Creio que acaba por pesar um tanto mais

Mas as pedras viram areia, areia poeira
A poeira esvaece-se quando a águia voar
E adere aos pelos, à pele, adere aos corações
São só manchas que dão aparência envelhecida
À face que o tempo já socou, sulcou e soltou por aí

A questão é o valor que se agrega ao peso da pedra
Importa a razão para que essa pedra esteja ali
E importa mais ainda a motivação para que ela saia
Às vezes, valem a pena os calos, o sangue, as cicatrizes
N’outras, melhor apenas voltar

Não é por ter uma pedra que a gente tem que tirar do caminho
Esqueça a estupidez e os versos de rodapé de agenda
Sangre pelo que acredita que valha a pena lutar
Mesmo que esteja errado, coragem é lutar por um ideal
E não meter o peito para bala perdida, isso é burrice

 

O que ele quis

25/11/2011

 

Ele quis chorar, mas sem ninguém para consolar, antes conter-se.
Ele quis desabafar, mas sem ninguém para ouvir, antes calar-se.
Ele quis querer, mas sem ninguém tê-lo quisto, antes não amar.
E quis sonhar, mas sem poder errar, antes apenas viver.

Ele quis ganhar, mas por ter tanto a perder, antes nem arriscar.
Ele quis errar, mas sem nunca ter acertado, antes nem explicar.
Ele quis ser feliz, mas como a vida é tão curta, antes fazê-los
E quis sumir, mas isso é um luxo fora do alcance dos servos.

Ele quis ser igual, mas tinha alma singular e complexa, antes fingir.
Ele quis se destacar, mas parece clichê, antes ser melhor que isso.
Ele quis viver a utopia, mas você aparecer e tornou real, antes sonhar.
Pois quis você, mas o destino pregou uma peça, antes a honra.

E ele quis escrever versos cheios de “quis”… Isso ele conseguiu,
Mas de forma tão abstrata que não pôde tocá-los,
Antes terminar aqui.